Penso a escrita como uma forma de redenção. Anseios "sub-versos", vontades reprimidas, personalidades fugidias, entre tantas outras inconstâncias que nos assolam, se tornam palpáveis quando escritas com um mínimo de clareza.
Mas, para que revelar aos outros as inconstâncias que me são tão íntimas e talvez incompreensíveis por quem vê de fora?
Não sei!
Talvez os possíveis leitores possam me ajudar a esclarecer.
No momento, apenas uma tentativa de poetizar os dias cinzentos; ou de concretizar um conselho de um amigo.
"Já haviam me alertado que não degustaria a mais fina culinária de São Paulo. Nem ao menos os sabores artificiais mais realçados que despencam das prateleiras dos supermercados. O prato do dia (do café da manhã; do da tarde; do almoço; da janta...) seria macarrão. Molho de tomate. Com carne pra eles. Sem carne pra mim.
Mas, já com sorte, não comi só macarrão. Ovo cozido, arroz e batata palha fizeram da mesa o ponto de convergência pra jogar conversa fora numa tarde cinzenta, após acordar tarde num domingo qualquer. Um pequeno altar no canto direito da sala, embaixo da janela; dois ou três quarteirões abaixo da Avenida Paulista; o som de "Listen" do Talib Kweli ainda fresco na cabeça, floreado pela imagem de lindas negras com seus lábios fartos, cabelos enfeitados e cheiros encantadores.
No meio de poetas, eu me sentia insensível por não escrever poesia. Paradoxalmente, havia sido chamado de gay, mesmo que indiretamente, por carregar na mochila um bottom da Amelie Poulain.
- De quem é esta mochila?
- É minha!
- Amelie Poulain, cara?! Isso é coisa de menina.
- Ah é?!
Nunca entendi o motivo pelo qual ser comparado a uma mulher consiste em xingamento. Neste caso em particular, entendi que aparentava, por carregar o bottom e pela natureza do filme, ser uma pessoa sensível, sutíl e delicada. Como a Amelie Poulain. Ou, como uma menina. Mas assumir tal situação já é motivo mais uma vez de olhares atravessados que conduzem de novo ao ponto inicial:
- 'Pessoa sensível, sutil e delicada, cara? Isso é coisa de menina'.
Insensível ou não, nunca fui poeta, como os caros colegas que compartilhavam a refeição comigo. E minhas prosas, ou meus sub-versos, nunca foram revelados, se não à amigos íntimos. Mas estavam escritos, dispersos, espalhados por qualquer canto de minha casa. Mas eis que vem a provocação de um verdadeiro provocador:
- Por que você não faz um blog e taca suas coisas na net?"
Eis o blog. Eis os sub-versos tacados na net.
Contrário a proposta inicial, na qual eu não revelaria minha identidade, assumi quem sou eu e todas as possíveis implicações dessa postura. E em troca, por gratidão, revelo o provocador, que apesar de novo amigo, me soa tão antigo e caro: João.
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" Cada homem tem o seu jeito. A maior parte da escrita é feita longe da máquina de escrever, longe da escrivaninha. Eu diria que ocorre nos momentos silenciosos, enquanto você caminha, faz a barba ou esta jogando, ou mesmo quando esta conversando com alguém que não esta vitalmente interessado. Você esta trabalhando, esta exercitando a parte de trás da cabeça. Então, quando você se senta à máquina é uma mera questão de transmitir ao outro. Que seja essa a necessidade de quem escreve."
ResponderExcluirHenry Miller, quando perguntado se existe um condicionamento para escrever e ser escritor.
Satisfeita pela oportunidade de ler o Andrey por aqui também. Sua sensibilidade é tocantemente irônica, isso se mostra nas suas palavras de alguma forma.
Monique.
awayyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy
ResponderExcluirE vejam só... As comparações nada provam, na verdade por vezes sim... Provam que quem as lançam não sabem bem onde tatear, ou melhor dizendo, se é que existe uma forma melhor de se dizer alguma coisa, não conhecer causa um certo desconforto...
ResponderExcluirPô logo o do Amelie Poulain... que eu quase roubei (=
Que seja, salve salve ao João, por esse empurrão.
Seja bem vindo as linhas, não tão tortas dessa rede.
[s]s
Sempre soube que o admiraria por suas idéias e formas de pensar. E isso já faz um bom tempo! (Pra mim parece que foi ontem, mas já se passaram 8 anos desde que pensei assim pela primeira vez!)
ResponderExcluirApareceu sua foto no canto direito da minha tela e a frase: "Israelenses malditos! Libertem a Palestina" foi aí que tive vontade de entrar no seu orkut pra te dizer que sinto saudades e vi a url de seu blog e me deparei com tudo aquilo que somatizava a seu respeito: idéias fabulosas concretizadas em poesias que soam como música pra mim!
Me sinto muito feliz de ouvir seus "pensamentos dos dias cinzentos" nesse blog...Vou te "visitar" sempre!
Saudades drey...De todo meu coração!
Amelie Poulain. Pessoa sensível, sutil e delicada. Eu teria outros adjetivos, não só para Amelie.
ResponderExcluirMe sinto alienada.