terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Excerto 1º - Sobre a oposição entre a fé e a razão


Razão e espírito; bem e mal; e outros “pares de opostos”, como comumente são chamados. Uma bipolaridade que nos confunde as idéias, e a partir daí, a percepção da realidade. Opõe-se o desenvolvimento racional à uma evolução espiritual, que se sugere como algo mais sutil e que exige uma sensibilidade mais aguçada. Uma entrega ao que é divino e uma renúncia ao que é humano e material; chamamos a isso de fé... atitude que “remove montanhas” e que os cálculos matemáticos não podem conceber. Sublime é a ignorância dos que tem fé e que rejeitam o empirismo como sendo pecado e blasfêmia. Não se permitem sentir o que está submetido à sua crença na existência. Pois se a física quântica vem nos sugerir hoje um retorno às meditações místicas da antiguidade, como podemos opor racionalismo a espiritualidade? Apenas o foco é outro, mas o objeto se preserva mesmo que se revalorizando. Essa mesma racionalidade criticada é exercitada quando separamos em gavetas as dimensões da existência. Ora deambulando pelos domínios do espírito, ora, em outra rota, no que concerne a matéria e ao racionalismo; se divide em gavetas a unidade vital, e se confunde a existência em cansativas classificações, e segregações e conceitualizações. Se se sugere que o racionalismo é esterelizante e que nos impede de alcançar a “iluminação”, dada em cartilhas (ainda mais esterelizantes) por inúmeras linhas filosóficas. Se se sugere que se a espiritualidade nos conduz à uma bem-aventurança, à um estado de espírito auto-suficiente, realizado e desenvolvido. Mas o racionalismo trouxe algo magnífico: a exploração do que inquestionavelmente chamávamos de espírito e espiritualidade.

* Imagem do filme Andrei Rublev.

2 comentários:

  1. Acho que a sensibilidade no desenvolvimento racional é ainda mais aguçada do que no entendimento espiritual. Na busca pela "iluminação" como você diz, as regras já são impostas, o que se precisa saber para ser um bem aventurado, já esta traçado. A sensibilidade se torna assim, apenas um tipo de aceitação.

    Gostei muito do trecho:

    "Mas o racionalismo trouxe algo magnífico: a exploração do que inquestionavelmente chamávamos de espírito e espiritualidade."

    Monique.

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  2. E a vontade de desvendar os profundos mistérios que circundam a vida, o recheio de perguntas sem respostas e a fé cega onde nada pode ser explicado...
    Opostos, talvez... Mas só por haver necessidade de opostos para se manterem em pé... Claro que existe fé e fé, e a melhor delas pode-se dizer que é a que simplesmente não foi estudada a fundo, o mesmo pertence a quem sequer pensa em estudar no que acredita...
    Mas da cegueira algumas vezes nasce a vontade de descobrir o que mantem o castelo de cartas em pé...
    Foi-se o tempo em que a fé bastava... Já se foram os caminhos traçados, hoje são outros discursos...
    Ou como diz os Engenheiros do Hawaii:

    "olho vivo, faro fino e... tanto faz...
    é preciso saber de tudo e não pensar em nada
    fé cega e pé atrás"

    [s]s

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